Hora de sacudir presidente
Por Eduardo Vieira
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Poucas horas depois da derrota da Seleção masculina para o Canadá, conversei com o presidente Coaracy Nunes, que se encontrava bem chateado com o resultado. Não pelo placar, mas pelas circunstâncias que envolveram a derrota para o maior rival no Pan-07 e, em especial, da situação física de boa parte dos jogadores. Sem querer encontrar culpados e deixando claro que não tomaria qualquer decisão de cabeça quente, apenas foi claro numa questão: exigirá comprometimento total para quem estiver no Brasil e “quase total” para aqueles que jogarem no exterior.
A defasagem física da Seleção foi admitida pelos atletas e até o técnico Carlos Carvalho. A dura verdade é que a idade pesa se o jogador não se dedica 24 horas ao esporte de alto rendimento. E, sem coletivos, não conseguem adequar o físico às circunstâncias do jogo. Basta dizer que o espanhol Gabriel Hernandes riu quando soube que o Brasil traria o Sottani: “Mas ele tem 33 anos? Não dá mais”. Porém, discordo de Gabi, já que Sottani brilha no Pro-Recco, campeão italiano e com fôlego e talento para o Pan-2007.
“Terei uma reunião com o Pagura que, assim que chegar, me entregará um relatório do que se passou nessa Liga. Tenho que dar uma reformulada”, disse o presidente, deixando claro que não necessariamente significa mudança da comissão técnica ou afastamento de jogadores. Mas nesse caso de postura. No nado sincronizado, por exemplo, abriu mão de uma atleta tecnicamente excelente, Carmem Lúcia, porque esta não poderia trancar a faculdade em Ohio (EUA) e assim treinar com o resto do grupo. Decisão difícil para ambos os lados, afinal Carmem tinha tudo para formar o dueto com Lara Teixeira e, segundo as próprias técnicas, é um desfalque importante no conjunto.
A verdade é que venderam um peixe ao presidente de que o Brasil teria condições de chegar à Superfinal, o que permitira que a crise durante os treinamentos fosse esquecida. Mas pelo que se percebe, sem condicionamento físico não se acompanha o ritmo moderno do atual pólo aquático, assim como em qualquer modalidade. Faltando menos de um ano para o Pan e, com o Pré-Mundial pela frente, Coaracy sabe bem a repercussão que provocará os resultados na imprensa e no COB. Porém, cabe aos jogadores e a comissão técnica solucionarem os problemas e tentar o melhor até o Pan. Se houver comprometimento e mudança de atitude, com uma parte física forte, pode-se voltar a enfrentar Canadá e Cuba em igualdade. Eu defendo um período de concentração antes do Pré-Mundial numa cidade fora do eixo Rio-São Paulo, seja para os meninos ou meninas. Basta dizer que astros como Giba, Gustavo, André Nascimento (vôlei) e Leandrinho, Anderson Varejão e Marcelinho (basquete) aceitam o regime de internato para terem uma alimentação e descanso ideais. E ficam afastados de badalações e problemas particulares.
Por outro lado, tem a questão da estrutura interna que seguirá débil por muito tempo. O próprio calendário até o Pan praticamente inviabiliza uma Liga Nacional. Porém, sem querer ser profeta, a chance do Brasil sediar a Olimpíada de 2016 é grande, e essa questão já merece um tratamento carinhoso. Assim como a preparação de equipes nas categorias de base. Uma alternativa radical seria repensar a presença na Liga Mundial, caso se mantenha nesse mesmo formato. Viajar ao Canadá para fazer dois jogos não compensa. Com essa mesma verba, existe a possibilidade de se fazer de 10 a 15 jogos na Europa. E aí um ano ou dois depois, retornar a esse tipo de competição.
O feminino serve de exemplo. Não que as meninas sejam fenomenais (eu particularmente acho que são). Mas elas notaram que, sem treinamento sério, cairiam para o terceiro grupo. Neste ano, venceram Nova Zelândia e China, mas se bobearem um pouco já vão sofrer em 2007 e ultrapassadas em 2008. A verdade é que hoje o feminino se divide em grupos, com uma elite: Estados Unidos, Canadá, Austrália, Hungria, Rússia e Itália; um grupo de excelência com Grécia, Espanha e Holanda e, em seguida, Brasil, Nova Zelândia, China e Alemanha. As brasileiras têm chance de ascender ao segundo grupo, como provaram no Mundial-05. Agora, é necessário intercâmbio, muito treinamento, e um aumento da base de jogadoras. E comprometimento mútuo de técnicos, atletas e dirigentes.
Se os meninos atingirem essa consciência que o Chiappini conseguiu passar para as meninas, são capazes de se manter nesse segundo grupo. Para subir à elite, o Brasil ainda sofrerá muito e, atualmente, só terá sucesso em jogos momentâneos. Se eu ainda acredito no ouro no Pan-2007? Sim, porque essas meninas são capazes de se superar. Mas para isso é essencial muito trabalho, o apoio da torcida e um pouco de sorte. É aquilo, não é ponto corrido e num jogo tudo pode acontecer. O imponderável, no entanto, só trabalha se aliado a uma dose de competência. Caso estejam voando, as meninas, que terão novamente a liderança de Camila Pedrosa, não precisam abdicar do sonho.
Para finalizar, um recado: quem constrói heróis geralmente é a imprensa. Então, dentro da água cada uma tem que pensar no bem da equipe. Contra a China, o gol foi da Dea, mas poderia ser de qualquer uma. E o que fica é a vitória. O gancho acaba sendo o último gol ou o desenlace, como foi a cesta do Nezinho no Sul-Americano de basquete, porém isso é circunstancial. Vem aí o Pré-Mundial com televisão ao vivo, um teste para a Deusa-Vaidade. E não se esqueçam do ensinamento do técnico Phill Jackson, que tem como vocês não gostam de ler: oito anéis da NBA (o que não é pouca coisa). Ou seja, numa equipe se deve trocar o Eu pelo nós. E esse ensinamento foi seguido por caras como Michael Jordan, Scotti Pippen, Shaq O´Neal e Kobe Bryant, que talvez tenham um currículo esportivo um pouco melhor do que nossas belas estrelas da piscina.
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