. Colunas

Raio X de um fiasco pintado de ouro e bronze
Por Letícia Furtado

Como previsto, na Copa UANA os meninos brasileiros ficaram com o bronze e as meninas com o ouro, assim mesmo graças à ausência do Canadá e dos EUA. Cuba continua freguês, como sempre aconteceu desde os primeiros confrontos contra as meninas de Fidel, no idos anos 90, seleção da qual fiz parte e tive a oportunidade de fazer a mesma constatação: elas nadam bem, são técnicas, mas não tem conjunto, mais por falta de inteligência do que de experiência. Enfim, nada mudou. Aliás, mudou sim, os nomes dos artistas... e só. Nem mesmo os discursos evoluiram: "faltou ritmo de jogo", "começamos mal", "não tivemos tempo para treinar" etc...

No masculino, o sonho de ganhar do Canadá, minha segunda pátria, está cada vez mais distante. De confrontos apertados há algum tempo, os brasileiros estão perdendo "en bonne et dû forme", como diriam os canadenses. A desculpa é sempre a mesma, ou seja, falta verba, falta continuidade no trabalho, falta intercâmbio.

E o Canadá, será que também não tem os mesmos problemas? Claro que tem. Com a diferença que existe um programa nacional eficaz. Não mais verba, nem material humano melhor, mas MUITO MAIS organização, seriedade e profissionalismo. Este último, leia-se de fato e não de direito, já que, fora 2 técnicos por categoria e alguns pouquíssimos dirigentes, todos são voluntários e trabalham como profissionais, dando muitas horas por mês de disponibilidade. Em terras canadenses os atletas também são estudantes. Na seleção senior, além de alguns estudantes, quase todos trabalham em outro domínio. Obviamente nada de muito "sério", visando disponibilidade para a seleção. Qualquer semelhança é mera coincidência.

Agora vamos às diferenças:

1. Todos pagam taxas anuais aos seus clubes que variam de can$1500 à $2500 por ano, fora as passagens aéreas para os campeonatos da Liga Nacional.

2. Os atletas do programa nacional (senior e junior) são classificados pela federação segundo avaliações oficiais e recebem ajuda de custo de acordo com critérios bem específicos e documentados (avaliação de pólo aquático e não de fisiologia na ABBR!). Os valores variam entre can$900 e $1500 por mês, reavaliados anualmente. Algo que equivaleria à mesma quantia em reais já que o custo de vida no Canadá está em torno do dobro do Brasil.

3. O direito à ajuda de custo tem uma contrapartida muito alta. Todos, sem excessão, mesmo lesionados, tem a obrigação de estar presentes em todas as concentrações e viagens da seleção quando convocados. Concentrações essas que não são bancadas pela Federação. As viagens para torneios no estrangeiro e alguns campeonatos de menor importância também não. O atleta tem que se virar com a ajuda de custo federal (um projeto semelhante em gênero e número à Lei Piva) e dar as caras onde for exigido.

4. O que difere também é que eles contrataram como técnico do masculino um expoente do país que é, sem sombra de dúvida, o melhor do mundo: um "iugoslavo". Já o Brasil... sem comentários. A coincidência com a gente fica apenas no feminino, que prioriza as prata da casa, já que estes sempre deram resultados.

Pessoalmente, estou convencida que a estratégia canadense pode ser aproveitada quase ipsis verbis para a realidade brasileira. É só ter humildade de aceitar o mar de desperdício de talentos no qual o pólo brasileiro está afogado e querer melhorar com ajuda alheia.

O feminino também tem que entrar no mesmo esquema, apesar dos resultados de fato serem melhores que os do masculino. A continuidade do trabalho é fraca e basta esperar o tempo passar, treinando com alguma regularidade, que se alcança a seleção brasileira principal. Nesse esquema, o material humano só tende a se deteriorar. E aí não há Chiapinni que dê jeito.

A título de ilustração, descrevo à seguir uma estratégia muito comum no Canadá, que pra mim é a chave do sucesso do feminino canadense. E com isso, apesar da verba do feminino ser maior que a do masculino, por conta dos resultados internacionais obtidos no quadriênio 2000-2004 pelas meninas, o aproveitamento da mesma é muito melhor. Isso porque muita coisa é feita com verba mínima, quase nula. Aí vai: Outro dia joguei um torneio oficial onde participaram duas equipes femininas juniors, que fornecem a base da seleção junior canadense (DDO e CAMO). O pau comeu na água (ainda estou sentindo o maxilar de uma cotovelada que levei marcando o centro, devidamente revidada, é claro). Mas elas ainda não se dão bem na segunda divisão mista do Québec, na qual eu jogo com mais uma dezena jogadoras masters espalhadas pelas várias equipes senior B provinciais. Mas alguém tem dúvida que esse tipo de confronto só faz bem? E no Brasil? Quantas vezes por ano a seleção junior enfrenta oficialmente equipes superiores de outras categorias? E por aí vai. As aberrações são infinitas.

Da minha parte, me comprometo a traduzir e explicar para quem quer que seja, como as coisas são feitas no Canadá. E posso também fazer a ponte sobre possível intercâmbio tanto de técnicos, como de dirigentes. E por falar nisso, o Daniel Bertellette voltou ao quadro de técnicos da Federação. Voltou no junior feminino para o biênio 2006-2008. Aguardem essas meninas!

Talvez as pessoas estejam rindo dessa sugestão, já que o Canadá masculino nem é tão forte assim. Mas é melhor que o Brasil e está crescendo dentro das próprias possibilidades, que são similares às brasileiras. O feminino então, acho que nem preciso dizer tanto. São top 6 mundiais, apesar do mesmo esquema amador do masculino, com algumas poucas jogadoras jogando na Itália e nos EUA. Novamente, qualquer semelhança é mera coincidência. Então por que não os resultados?

Que essa Copa UANA sirva de lição e não de oportunidade pra dizer que tudo foi bom e maravilhoso; que o bronze está de bom tamanho e que o feminino ganhou ouro batendo Cuba, como saiu grandão no poderoso "O Globo". É hora de sentar e pensar. De deixar esses exageros pra imprensa, apenas pra justificar os nossos resultados junto aos patrocinadores.

Pra terminar, sugiro fortemente que todos os interessados em infra-estrutura, como eu, leiam com carinho os links do WP Canadá sobre os seguintes assuntos:

2005-06 AAP Athletes Program

http://www.waterpolo.ca/Images/National%20Team%20Files/AAP_2005_06-carding.pdf

National Team Athlete Agreement

http://www.waterpolo.ca/Images/Governance/Athlete_Agreement_english.pdf

National Team and AAP Selection Manual

http://www.waterpolo.ca/Images/Governance/AAP-NTselectionManual0405.pdf

WPC Directory - Répertoire

http://www.waterpolo.ca/Content/General%20Information/Directory.asp?langid=1

E vale também vasculhar o site, que tem vários problemas, mas tem coisa interessante:

http://www.waterpolo.ca/Content/Home.asp?langid=1

Traduções disponíveis gratuitamente no:

http://babelfish.altavista.com/

Obviamente, vocês vão reparar que a federação se chama WP Canada, que é independente da natação, assim como toda a verba federal destinada à entidade. Existe uma federação que engloba todos os esportes aquáticos (Aquatic Federation of Canada), mas que é meramente burocrática e não lida com repasse de verbas, nem com infra-estrutura de elite ou massificação.

E no Brasil, tudo tem que começar por aí: AUTONOMIA JÁ!