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Será que tem cura?
Por Letícia Furtado

Oficializar pra quê?

Todo mundo já deve estar sabendo que o Nordeste, junto com Brasília, estão se organizando paralelamente às Federações e, principalmente, à CBDA. Na verdade, não existe briga com as entidades, mas simplesmente nenhum interesse em se tornarem, por assim dizer, oficiais. E é por isso que o pólo-divertimento, aquele que dá chance pra todos e todas, está de vento em popa por lá.

Isso porque eles compreenderam que qualquer Federação aquática é ligada à CBDA e, portanto, se resolverem oficializar o pólo aquático regional, terão como único parâmetro, a fracassada infra-estrutura que vigora há mais de meio-século. O Brasil nunca arrumou nada de decente, fora nos tempos do Szabo (nos anos 50/60) e no tempo do Solon, quando garantiram a vaga na Olimpíada, ainda assim por conta do boicote do bloco socialista. Portanto, é óbvio que o que eles sempre fizeram nunca funcionou.

Aliás, que algum louro seja dado, a única coisa de bom que é feito, é TOTALMENTE restrito ao Rio e São Paulo e vai do infantil até no máximo o primeiro ano de Junior. O resto não existe. Esses meninos jogam muito, mas quase ninguém vinga porque a ponta da pirâmide está completamente despedaçada.

O feminino nem se fala. Está sempre num eterno recomeço, por isso afirmo que um ano de trabalho forte com um grupo como os que já existem no Nordeste, dará nível pra jogar no Brasileiro... e bem!

Além disso, o máximo que a FARJ já fez em termos de massificação fora das categorias de base, foi a "finada" categoria estreante, onde atletas de mais de 16 anos que nunca jogaram oficialmente, poderiam jogar por um ano, num nível mais fraco. Após isso, ou subia pra primeira divisão ou não jogava mais. Por isso não vingou. Em São Paulo, não posso falar, mas pelo que eu sei, toda tentativa de fazer prosperar uma segunda divisão nunca deu muito certo. Isso porquê, na cabeça dessa gente, federar quer dizer elitizar (no meu tempo de nadadora era até esnobe dizer na escola que eu era federada!). Recolher migalhas de quem não tem, mas cuidar mesmo só de uma de elite, que de elite em termos mundiais adulto, não tem nada.

A fórmula certa para países de dimensões continentais como Brasil, EUA, Canadá e Austrália é desenvolver o máximo possível o esporte, em qualquer nível que seja. Na última década na Austrália, p. ex, o pólo masculino tinha 8 divisões (e deve ter aumentado nos últimos anos): 5 por idade e 3 « segundonas ». Tinha que ser assim no Brasil pra incentivar a massificação e todo mundo ter um campeonato oficial pra jogar no seu nível, não apenas na sua idade.

No nordeste, eles começaram pelo "povo". Todo mundo joga e tem o seu espaço. Conseguiram fazer até feminino com tantas equipes quanto no eixo Rio/SP. Isso porque sempre aceitaram a presença delas dentro d’água. Não teve briga pelo horário de piscina e outras picuinhas que atravancam o desenvolvimento da categoria. O próximo passo, pelo que eu ouvi falar, é o organizar competições de mini-pólo aquatico (com o pé no fundo) pra garotada abaixo de 10 anos. Bela iniciativa pra massificar o esporte da maneira certa! Cada macaco no seu galho e a macacada crescendo e se « reproduzindo » no seu ritmo.

É uma pena, mas, pelo menos virtualmente, nunca uma federação vai funcionar nesses moldes. A CBDA não é organizada assim. Lá é categoria por idade, com as regras da FINA e quem não é federado não joga. E os clubes que se virem pra formar as equipes do jeito que podem (vide esse suicídio que vai ser o Brasileiro Juvenil com equipes de fora que jogam juntos há apenas 3 meses, contra times como o do Sólon no Flamengo). E isso não dá certo porque não respeita nenhuma realidade local. Pelo contrário, tenta uniformizar o “inuniformizável”. O pior é que não pagando a taxa anual, não participa dos campeonatos oficiais. As meninas de Brasília que o digam. E as de Santa Catarina? Todas federadas, apoio (leia-se clínicas e intercâmbio com SP, alí do lado!) ZERO da confederação!

Sou da política que quem quer, faz. E eles do Nordeste FAZEM. Não precisam de ninguém pra dizer como se faz. Quando querem e precisam, perguntam. Nenhuma Federação pode impedí-los de organizar eventos extra-oficiais, nem mesmo de fazer quantas clínicas quiserem. Até porque, quem aqui precisa de diplominha de árbitro de pólo com o logotipo oficial? Eles precisam é de voluntários que saibam apitar, que saibam funcionar na mesa, seja vestido de cor de rosa, preto, ou o que for. Menos ainda de diploma de clínica. No Brasil, pra trabalhar oficialmente como técnico, tem que ter diploma de ed. física. E só. Mas ninguém vai exigir isso de um voluntário que dá treino, né não? :)) Então, toda essa formalidade não vale de absolutamente nada. Só atrapalha.

Pra quem quer ver o resultado de uma organização que visa o jogador, e não o contrário, ou seja, jogadores que correm atrás de uma organização estagnada, é só pegar um avião pra Salvador no feriadão do 7 de setembro. Estará rolando por lá a segunda etapa do Circuito Nordeste/Centro-Oeste. Organização amadora com ar de profissional. Muitos voluntários e muita vontade de fazer certo logo na primeira vez.

Esforço certo no lugar errado

E por falar em suicídio, por favor, me belisquem pra eu ter certeza que não é pesadelo. Me digam, por obséquio: Quem, em sã consciência, vai se despencar do Nordeste, do Centro ou do Sul do país pra participar de um Compeonato Brasileiro com Gabi Hernández e Felipe Perrone pelo Botafogo, Guilherme Molina, Kiko Perrone, Leonardo Sottani e Ivan Pérez pelo Fluminense e pra completar o Pinheiros com Pietro Fiogli, filho de Silvio Fiolo, que defende a seleção da Austrália? Vale mais a pena vir assistir, do que obrigar esses monstros sagrados a participar de jogos com placares de 20, 30 gols de diferença.

Se estou falando nisso, é só pra enfatizar o paradoxo do discurso oficial. De um lado eles falam que se preocupam com a massificação (só se for o infantil do Rio e SP) e do outro, organizam campeonatos misturando níveis de pólo aquático com anos-luz de distância. Cadê o estímulo para continuar treinando? Ninguém gosta de só apanhar. Tem que existir uma divisão, ou pelo menos uma fase dentro de uma Liga Nacional, onde os jogos são equilibrados.

Volto a mencionar o que escrevi há algum tempo. A Liga Nacional é necessária, envolvendo todas as equipes do país (esbocei um formato na coluna “Tentando juntar as pontas”) e um Campeonato (ou Fase) só para os vencedores, num período morto na Europa pra poder contar com essa constelação toda em terras tupiniquins.

Esforço certo no lugar certo

Enquanto isso na Rússia, o feminino apareceu de repente (pra quem acha que foi assim mesmo!) mostrando placares impressionantes no Campeonato Europeu. 21 a 10 (4-0, 5-3, 7-4, 5-3) na poderosa Hungria, 37 a 8 na Eslováquia, 33 a 2 em Portugal, 17 a 13 na Espanha, 19 a 9 na Grécia. E ainda levou o título ao derrotar por 13 a 7 (3-0, 4-3, 3-2 e 3-2) a Holanda.

A receita é simples. Massificou, peneirou, estimulou as que sobraram pra garantir o recrutamento no futuro e massacrou de treino quem ficou!

Será que eles inventaram alguma pólvora?

Pólo no Pólo Norte.. de novo!

Mais uma vez me pediram pra falar do Canadá. Pela enésima vez vou explicar.

O material humano masculino aqui é podre. Até completar 12 anos, se joga com o pé no fundo. Com essa idade, o Michel Vieira e o Sula do GB já davam trabalho nos coletivos contra o feminino do Flamengo. E vendo as fotos do festival infantil desse ano, só confirmo o que escrevi outro dia : Tenho vontade de chorar quando vejo tanto desperdício de talento. O Brasil tem os melhores times de categoria de base do mundo! Mas tudo vai por água abaixo quando chega no último ano de junior.

No Canadá é o contrário. É no junior que eles começam a treinar de verdade. É outro esquema. É tudo pago pelos atletas. Quem foi escolhido é solicitado a estar disponível de « tal » data à « tal » data em « tal » lugar pra treinar. E só. Cada um que se vire pra estar lá! Quem duvida, vejam os links:

http://www.waterpolo.ca/english/pdf/Junior_Men_West_Camp_2006.pdf

http://www.waterpolo.ca/english/pdf/junior_men_top_20_2006.pdf

Eles saíram de um quinto lugar pra terceiro nesse PAN. Um milagre! Já pensou se os nossos juniors tivessem uma infra-estrutura mínima, adaptada com inteligência para a nossa realidade?

Já o feminino, não preciso dizer nada. Quem olhar os links acima, vai ver que o programa nacional (que conta com muitas juniors) tem previstos vários jogos contra esse time aí que tirou terceiro no PAN. Não tem mistério. Na falta de dinheiro pra viajar, bota pra jogar contra o masculino! Mas parece que a CBDA tem medo ... ou não quer dar a cara à tapa pro óbvio ululante.

Com o ouro no peito

Pra terminar numa nota feliz, ainda estou nas núvens com o Mundial Master. Que competição maravilhosa! E ainda por cima voltei com medalha de ouro pedurada no pescoço, com direito a recepção no aeroporto e tudo. Tinha até criança com bandeirinha do Québec :))

Legal mesmo foi a técnica (Jojo Gervais, que era do calibre da Maureen Mendonza nos idos anos 80) que trabalhou com 4 trincas, pra todo mundo jogar igual porque todas pagamos pra jogar. Nas categorias de base que saem do país levando o nome do Canadá também, porque as viagens são fruto de investimentos pessoais. Ninguém esquenta muito banco não. Isso porque o objetivo é evoluir o todo e não necessáriamente ganhar. Mas isso é outra estória, outra mentalidade. Uma outra realidade, que a rechaçada segundona brasileira já está pescando, graças a Deus!